quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Crônica #27: Lovers
Era uma noite de céu sem nuvens. Depois do jantar e da pequena reunião com Roberto e Mikhail, eu fui ao meu quarto, notando o pijama e o robe delicados preparados para mim. O pijama era um vestido de algodão fino, branco, com cetim e renda, muito semelhante àqueles usados pelas moças à época que Christian viveu como um humano normal, como líder da Rozenkreuz. Eu troquei de roupa, e fitei o céu pelas janelas amplas do quarto. Algum tempo depois, ouvi batidas na porta, e, abrindo-a, encontrei Elizabeth, que me sorriu, mostrando uma bandeja e, em cima da mesma, um envelope.
- Mensagem para a senhorita. Meu senhor pediu que a entregasse.
Balancei a cabeça, em sinal afirmativo, pegando o envelope. A moça agradeceu polidamente, sumindo pelo corredor em seguida. Fechei a porta do quarto, e sentei na cama, abrindo o envelope.
“Senhorita Von Klaus,
Sinto incomodá-la a esta hora da noite, mas preciso ter com a senhorita. Há alguns assuntos sobre os quais precisamos conversar. Acredito que sejam do seu interesse. Caso assim deseje, por favor, encontre-me na sala de entrada. Estarei esperando.
Sinceramente,
Christian Rozenkreuz”
Uma armadilha...? Não, não era o que parecia. Decidi descer e conferir por mim mesma.
Andei pelos corredores em meia luz, e, ao descer as escadas que levavam à sala, vi Christian ao lado da lareira. Ele contemplava as chamas crepitantes calmamente, com um ar pensativo. Quando notou a minha presença, assim que cheguei ao fim do lance de escadas, sorriu, e me indicou uma poltrona à beira do fogo, enquanto sentava-se em outra à frente da minha.
- Fico contente que tenha aceitado meu pedido e vindo me encontrar. Eu sei que ainda tem suas dúvidas em relação a mim, mas eu não pretendo lhes fazer mal algum. Quero apenas... Conversar.
Eu o encarei, e esbocei um sorriso. Se quisesse descobrir qualquer coisa, teria de dançar conforme a música que ele tocava. E isso eu sabia fazer bem.
- Não precisa se desculpar por ter me chamado. Fiquei apenas um pouco surpresa com o seu convite, mas não me incomodou. Enfim... Em que posso ajudar?
- Ah, não se preocupe com essas formalidades – ele sorriu novamente, amistoso – É a primeira vez que recebo outro imortal em minha casa. Na verdade, é a primeira vez que recebo um familiar, também. É realmente maravilhoso tê-los comigo. Mas este não é realmente o ponto... – ele suspirou – Eu estou surpreso. Como veio a conhecer meu filho?
- Eu o conheci na Academia onde ambos lecionamos. É um lugar único no mundo, por reunir humanos e toda sorte de criaturas... Inclusive nós. Obviamente, ele não sabia de nada disso, e nenhum humano normal deve saber. É, afinal, uma organização pacifista, e eu admiro o trabalho feito pelo diretor.
- Entendo... Ele quer promover a paz mostrando que é possível a convivência harmoniosa entre humanos e os demais seres. Interessante... – por um instante, ele pareceu um pouco distraído, mas recuperou o foco – Eu não sei se posso permitir a relação entre vocês dois. Como posso saber que não o está apenas usando como uma fonte dos nutrientes que vocês dessa espécie tanto precisam?
Eu o olhei, séria.
- Temos tecnologia suficiente para recusar e até mesmo abominar esse tipo de relação. E mesmo que não houvesse tal tecnologia, eu me recusaria a tomar sangue humano. Há outras fontes que podem ser usadas para isso sem maiores prejuízos.
- É claro. Sinto muito se a ofendi com a pergunta.
- Eu amo Mikhail. Eu nunca seria capaz de usá-lo.
- Certamente que não... Você até mesmo tem um pouco do cheiro dele em si. E o mesmo se aplica a ele. Tenho certeza que ele a ama. E por isso cuidam tanto um do outro... O que inclui eventuais trocas de sangue, não?
Eu corei, mas ele apenas me olhava, sorrindo afetuosamente. Então, olhou para a parede. Para a tela da moça que eu vira mais cedo, e suspirou profundamente. Olhei também para a pintura.
- Eu também já amei alguém, um dia. Era uma moça um pouco mais jovem que eu, e era linda como o sol da meia noite. Ela era tudo para mim... Era meu mundo – a voz com que ele falava era melancólica, cheia de sentimento, de saudade. Ele olhou para mim, e sorriu tristemente – Mas ela morreu. E com ela, tudo o que um dia eu pude chamar de amor. Se ao menos eu pudesse voltar no tempo...
Eu olhava aquele homem imponente, imortal, de feitos eternos. E de repente, ali, ele parecia tão pequeno, tão frágil. Tão humano. Ele fechou os olhos por um instante, recobrando o ar distante usual.
- Parecia interessada nela mais cedo. Aquela é Laura. Minha falecida esposa.
Me senti um pouco constrangida, pois Christian, afinal, percebera que eu havia reparado na pintura. Então, pude apenas sorrir, tentando confortá-lo de alguma forma.
- Ela era linda... – murmurei, olhando a tela.
- Sim. E é por isso, enfim, que não duvido que ame Mikhail. O amor que vocês têm um pelo outro se parece muito com o que havia entre nós. De qualquer forma... Vou voltar para minhas pesquisas. Já a detive por tempo suficiente – ele sorriu, levantando-se – Deve descansar agora. Amanhã devemos nos falar novamente. Boa noite, senhorita Von Klaus. E antes que eu me esqueça... A senhorita é tão linda quanto minha esposa era. Uma beleza refinada, delicada. Uma beleza imortal...
Eu também me levantei, e, sem graça, apenas balancei a cabeça, enquanto ele me sorriu uma última vez, para sumir pela porta para o seu laboratório.
E de repente, no meu caminho de volta ao meu quarto, eu lembrei das inscrições na lápide de Laura. Sim... Ela era de uma beleza imortal.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Crônica #26: Feelings of a god
Nham, enfim mais um capítulo saído do forno! =)
Chegando a um ponto crítico da história! Uuuuh! Por isso a demora, galera (tenho que pensar em cada palavra, pra fazer o melhor trabalho possível! xD). Bom, sem mais enrolação, porque sei que não estão aqui pra ler o que o Al pessoa física está dizendo, mas sim o que ele (e a Pris, é claro) estão escrevendo. Então, fiquem com mais um capítulo! Abs.
Allan.
Deitado, fitava o teto de meu quarto, me perguntando o que meu ancestral tinha planejado para nós. Antes de me recolher para a cama, porém, tomei um banho, afinal a viagem por baixo da terra fora totalmente desagradável. Após a limpeza me deitei, esperando as horas passarem até o jantar. Não agüentando muito tempo, segui para o quarto de Sophia, que me recebeu de certa forma aflita. Conversamos:
_O que acha que ele pretende, se entregando dessa forma para nós?_perguntou-me Sophia, sentada em sua cama.
_Não faço idéia, mas não devemos baixar a guarda em nenhum momento. Sabemos que ele era uma pessoa cruel e inescrupulosa. E devemos lembrar sempre do encanto que existe em sua voz e em suas palavras._ disse eu. Não me sentia confortável agora que conhecera Christian. Tinha certeza que ainda não estava acabado, mas não tinha como fugir a verdade agora.
Olhando para o relógio, Sophia percebeu que a hora do jantar se aproximava. Então levantamo-nos, e seguimos para a sala de jantar, acompanhados de um animado Roberto. A casa era imensa, e só pudemos encontrar o local por dedução e sorte. Lá chegando, uma longa mesa se estendia, totalmente posta. Ao fim da mesa, Christian nos saudava. Nos aproximamos do local onde estava, nos sentando junto dele, que parecia deliciado com nossa presença.
_Há muito tempo não recebo convidados à mesa! É realmente um prazer tê-los aqui!_e com um estalo de dedos, chamou o serviço._Sintam-se a vontade, garotos. Comam o quanto quiserem.
Nesse momento um rosto familiar surgiu, entre os servos de Christian. Lá estava a mulher que encontramos no cemitério, agora vestida como uma perfeita empregada.
_Ah, acho que já conheceram a Elisabeth. Desculpem os modos dela àquela hora, mas eram ordens minhas. Ela é uma serva leal, afinal de contas._disse Christian, sorrindo.
_Desculpem-me por não ter me apresentado anteriormente. Sou Elisabeth, serva do mestre Christian já há alguns anos. É um prazer tê-los nesta casa._falou Elisabeth, fazendo uma grande reverência em nossa direção. Agradecemos timidamente, antes que se retirasse, e então novamente, estávamos a sós com Christian, que se servia delicadamente dos pratos trazidos pelos serviçais. Acompanhamos ele na refeição, sem muito conversar. Até que eu, cansado de tudo aquilo, perguntei:
_Christian, por que nos fez passar por aquilo tudo, afinal? Pra que as pistas falsas, as armadilhas preparadas?
_Oras, eu sou o primeiro ser humano a alcançar a imortalidade. Como poderia eu ser facilmente encontrado? Você, Mikhail, como todos os que vieram me procurar, vieram em busca da mesma coisa. Você quer ser imortal, pra poder viver com sua noiva para sempre, sem precisar passar pelo tormento de tornar-se um vampiro como ela, não é?_Parecia que ele havia aumentado de tamanho, conforme proferia suas palavras. Tornara-se de repente ameaçador, a ponto de ser capaz de nos ferir. Continuou. _Como eu poderia ficar ali, esperando virem até mim, e pedirem para mudar suas vidas. Quantos e quantos não chegaram nem até a Itália? Acharia justo um qualquer chegar até aqui, e se sentar à mesa comigo? Eu, que sacrifiquei tanto para poder chegar a minha condição atual!
Assentia em silêncio, conforme Christian falava. Realmente, suas palavras faziam sentido, se postas naquele contexto. Sophia segurava minha mão suavemente sob a mesa, prestando atenção a cada palavra dita pelo imortal. Ele, entrelaçando seus dedos e colocando as mãos sobre a mesa, continuou:
_Enfim, vocês fizeram da forma certa, da forma que mesmo um mortal pode conseguir ultrapassar os portões de sombra que encobrem minha existência. Juntos, e somente assim, vocês chegaram onde estão. Esse é um dos valores exigidos por mim. Se fossem gananciosos e inescrupulosos, nem estariam vindo aqui
_Já vocês, pelo contrário, só buscavam respostas para suas questões. Mikhail talvez quisesse uma forma de ser imortal, mas não era o foco de suas pesquisas. Já Sophia tem isso dentro de si, não precisando de fórmula nenhuma para atingir a vida eterna. E Roberto... Apenas um curioso, um estudioso, sem qualquer pretensão de redescobrir a alquimia.
Roberto sorriu, meio encabulado. O discurso de Rozenkreuz era realmente tocante, e fazia todo o sentido agora. Nós fôramos escolhidos, passamos por seus testes, e agora ele nos daria o que desejávamos. Mas era estranho, algo ainda não parecia certo naquilo tudo. Cocei o queixo e forcei um bocejo, antes que a conversa se estendesse
_Ah, vejam só a hora! Desculpem-me tê-los mantido aqui tanto tempo. Bem, já sabem o caminho para seus aposentos. Creio que devam ter uma boa noite de sono, para que amanhã possamos esclarecer mais dúvida, sim? Qualquer coisa estarei no subsolo, em meu laboratório... Caso precisem de qualquer coisa, não hesitem em me pedir, ou aos servos da casa._e levantando-se, apenas esperou que déssemos boa noite, antes de desaparecer pela porta, em direção a seu reduto branco.
Caminhamos pelo hall à meia-luz, em direção aos quartos, porém entramos todos no quarto de Roberto, para uma “reunião”.
_Então, o que acharam?_perguntei de súbito, mal tendo fechado a porta atrás de mim.
_Parece um bom senhor, Mikhail. A meu ver, ele tem razão em ter colocado barreiras. Se fosse fácil encontrá-lo, quantos teriam vindo até ele, só para pedir pelo segredo da imortalidade?_dizia Roberto, de uma forma apaixonada, como fora o discurso daquele que foi a razão de suas pesquisas.
_Pode até ser, mas algumas coisas ainda me incomodam nele. Precisamos ficar atentos a tudo. Afinal de contas, ele fez coisas terríveis._retrucou Sophia, pensativa. _Querido, sempre se mantenha junto da sua espada, afinal nós já vimos do que ela é capaz. Talvez isso tudo seja apenas mais um truque, mais uma ardil...
Assenti, cabisbaixo. O discurso de Christian parecera sincero, mas sempre mantive em mente o seu poder de mediação. Sempre teria de manter a guarda alta, pois afinal, eu era o alvo principal, aparentemente. Dissemos boa noite para Roberto, e seguimos para nossos respectivos quartos.
Enquanto isso, no subterrâneo da velha casa, Christian Rozenkreuz permanecia sentado, pensativo. Sempre tecendo sua teia de palavras e atos. Sempre desperto para tudo ao redor. Sempre, e para sempre acordado.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Crônica #25: Portrait
Eu fiquei realmente impressionada. Por alguns segundos, eu não soube exatamente o que fazer. Apenas, olhava aquele homem de branco, com um misto de admiração e receio. Sim, admiração. A semelhança era imensa. Pouquíssima coisa o diferenciava de Mikhail, meu noivo, e tamanha era tal semelhança que poderíamos afirmar sem dúvidas que Mikhail seria a reencarnação de Christian Rosenkreuz, se o mesmo houvesse morrido. Mas isso era impossível. Lá estava ele, magnífico, mesmo depois de séculos. Vivo. Apesar de não ser um de meus semelhantes, e nem possuir traços de qualquer outra criatura mística que eu conhecesse - ao contrário, tinha a aparência bastante humana – ainda assim, era um imortal, de fato.
- Parecem cansados. Sinto muito por ter de trazê-los até aqui dessa forma, mas não havia meio mais rápido. Além do mais... Estava ansioso por tê-los comigo – ele sorriu para nós, e era um sorriso verdadeiro, afetuoso. Quase fraternal – Venham. Eu não lhes pretendo fazer mal.
Nós nos entreolhamos, e decidimos nos aproximar, cautelosos. Estávamos esperando pelo pior, afinal, esse era o mesmo homem que ordenara tantas mortes, em nome de suas pesquisas. O mesmo que perseguira o próprio filho, e matava seus descendentes tão logo os encontrasse. Por isso, tomei a dianteira de Roberto e Mikhail na saída, sendo a primeira a ir de encontro a Christian. O imortal me olhou com certo interesse, e me estendeu a mão. Resolvi aceitar o toque, e ver o que viria a seguir. Foi com surpresa que senti sua pele morna, humana, o que deixava claro que não era um ghoul, como os que tínhamos visto. Claro que não.
- Senhorita Von Klaus... Bem-vinda. Espero não estar chateada pela forma grosseira com que a trouxe aqui. Reconheço que não era o meio mais apropriado a uma dama – e levou minha mão aos lábios – Como forma de compensar tamanha falta de tato, oferecerei toda a minha hospitalidade.
Não sabendo exatamente o que dizer, apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça, séria. Em seguida, Christian se dirigiu a Roberto, e ambos apertaram mãos.
- Obrigado por ajudar Mikhail, Senhor Andolini. Sei que a Rosenkreuz é a pesquisa de sua vida, e, por isso, acho que posso contribuir com um pouco do que sei. Mas tudo em seu devido tempo, é claro.
Depois disso, então, ele se dirigiu ao meu noivo, fitando-o por um instante. Mikhail tinha no rosto uma expressão desconfiada, e parecia analisar cada passo de Christian. Estava alerta para a possibilidade de uma nova emboscada, e eu não fui a única a perceber isso. O próprio Christian, percebendo a tensão que se formara, esboçou um sorriso calmo. E então, simplesmente abraçou Mikhail.
- De todos os meus descendentes, você é o mais capaz, o mais inteligente, e o mais valoroso. Mostrou-se digno de todo o meu respeito. Eu o admiro, jovem Mikhail. Espero que possamos nos dar bem. Temos muito a conversar...
Dito isso, eles se separaram, e Christian, com uma expressão cordial, nos convidou a entrar através de outra porta, do lado oposto do laboratório. Fomos subindo por uma escadaria ampla, longa, em um corredor bem cuidado e iluminado. Não podíamos, no entanto, ver a fonte daquela luz, e não havia lâmpadas, ou fiação. O nosso anfitrião percebeu a curiosidade em nós, e foi nos explicando, durante o caminho.
- É Alquimia. Fonte de energia e luz pura, limpa e renovável. Quase eterna, eu diria. Um truque consideravelmente antigo e simples, mas seu conhecimento acabou se perdendo no tempo – ele suspirou, lamentando – Muito conhecimento de valor já foi perdido. Como pesquisador, eu luto para encontrar o que sobrou dos tempos antigos, e preservar tais achados.
- É para isso que aquele laboratório serve? Pesquisas com Alquimia antiga? – perguntou Roberto, incapaz de conter a própria curiosidade. Rosenkreuz sorriu.
- Sim, exatamente. São pequenos projetos, pequenas pesquisas, apenas para coisas simples. Os pássaros, as plantas, a luz... Tudo naquele ambiente foi gerado a partir da Alquimia. É de fato uma ciência magnífica.
Chegamos a uma porta simples, de madeira, por onde passamos, sempre atrás de Christian. No instante seguinte, estávamos numa sala espaçosa, com janelas de vidro amplas, por onde entravam a brisa e os raios do que restava do sol vespertino, já quase posto por completo. Havia uma lareira para os invernos rigorosos, e alguns móveis de madeira que, apesar de antigos, ainda ostentavam luxo e mostravam a fineza dos tempos em que foram adquiridos.
Havia telas a óleo nas paredes, também belas e antigas, e uma delas reconheci como sendo um Rembrandt. Mas essa não era a que mais me havia chamado a atenção. No meio de uma das paredes, solitária, havia pintura uma maior, um retrato de uma moça. Tinha longos cabelos louros e lisos, olhos azuis, pele muito branca, e uma expressão serena. Mesmo sendo um retrato do busto, podia-se perceber que usava um vestido fino, típico das damas nobres de alguns séculos atrás. Era linda. Uma beleza surreal.
Senti-me curiosa para saber quem era, mas não achei próprio perguntar. Tampouco deixei que o nosso anfitrião percebesse a minha curiosidade. Com o tempo, eu esqueceria o rosto daquela jovem misteriosa e bela. Mal eu sabia o quanto estava enganada.
- Eu irei levá-los aos seus aposentos... Acredito que estejam cansados e precisem de um banho antes do jantar. Não se preocupem com nada, mandei que providenciassem roupas limpas e tudo o que lhes possa ser necessário. Por favor, sigam comigo mais um pouco.
Seguimos por um lance amplo de escadas, que ficava à frente da porta de entrada para casa. No patamar superior, além de um bem iluminado corredor principal, que seguia em frente, havia uma bifurcação. Fomos pelo corredor, e, de cada lado, reparei que havia algumas portas. Havia também um vitral enorme e colorido, ocupando toda a parede ao fim do corredor. Paramos em frente à primeira porta da esquerda. Christian virou-se para nós, com uma expressão calma.
- Este será o quarto do Professor Andolini. Espero ser agradável.
Roberto seguiu adiante, abrindo a porta. Um quarto enorme nos foi revelado. Era claro, com paredes, cortinas e lençóis creme. Ele murmurou um agradecimento meio tímido, e entrou no quarto. Em seguida, o imortal nos levou para os dois quartos seguintes, abrindo suas portas, e revelando aposentos igualmente amplos, mas com paredes e lençóis de cores diferentes, nas tonalidades branca e azul claro, respectivamente.
- Este é o quarto da senhorita... – Christian gesticulou, mostrando o aposento - Por favor, sinta-se a vontade. O quarto seguinte fica para Mikhail. Creio que com isso estejam bem estabelecidos. Em duas horas, o jantar estará pronto. Assim, podem descansar um pouco, antes de conversarmos melhor – e sorriu, virando as costas e voltando pelo corredor - Até logo.
Eu olhei para meu noivo, me perguntando se estávamos mesmo seguros. Ele me olhou, determinado, e me deu um beijo na testa, antes de irmos cada um para seu quarto. E eu compreendi que não tínhamos outra escolha, a não ser ficar e ver o que nosso anfitrião desejava de nós.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Crônica #24: Family Meeting
Well, após o recesso de Final de Ano, cá estamos de novo, com mais um capítulo dessa emocionante história! (SessãodaTardefeelings xD) Enfim, apreciem! =***
Já na saída da igreja, após tomar o elevador de volta, eu já quase não podia esconder o meu ódio amargor. Meu semblante traía o sentimento guardado dentro de mim naquele momento. Foi Sophia que me fez libertá-lo em palavras:
_Mika... Está tudo bem..?
_Claro que não está, Sophy! Viajamos de tão longe, por uma pista falsa, e quase morremos nas mãos de uns imbecis, perseguindo uma pista falsa! Eu só queria que isso terminasse logo..._desabafei, um tremor de ódio percorrendo minha bochecha esquerda.
Entrei no carro em silêncio, e assim permaneci, tentando encontrar um sentido, uma resposta. Pela primeira vez me senti exausto, sem forças. Sophia sentou-se ao meu lado e me abraçou em silêncio, enquanto Roberto dirigia de volta para a casa de meus avôs.
Ao passarmos por um pequeno trecho de auto-estrada no caminho de volta, um engarrafamento se formava a nossa frente. Aparentemente, ocorrera um acidente em algum ponto a nossa frente, o que dificultava o fluxo de veículos. Após alguma lentidão, passamos ao lado do local do acidente. Havia uma ambulância, um carro de polícia e o próprio carro capotado, com duas figuras disformes, cobertas com um plástico preto. Engoli em seco.
_Que lástima... _disse Sophia, em voz baixa. Eu, quando vi o resultado do acidente, lembrei-me imediatamente do acidente fatal em que meus pais se envolveram, e senti uma grande dor no peito. Olhei novamente para aquelas figuras ocultas, e algo me chamou a atenção.
Uma mancha avermelhada se destacava no canteiro da estrada, parcialmente coberto pela neve. A forma totalmente simétrica de uma rosa-cruz estampava a neve,
_Professor, pegue a próxima saída a direita, na estrada. Vamos pra outro lugar!_disse, saindo do antigo torpor. Se aquilo fosse um sinal, sabia exatamente pra onde ir. O cemitério onde meus pais estavam enterrados.
Pouco depois de sairmos da auto-estrada, e já explicada a súbita mudança de rumo, estávamos seguindo por uma rua pouco movimentada, quando à esquerda destacava-se um longo muro branco. Paramos próximo a um enferrujado portão de ferro, e sem demora, entrei, seguido por Sophia. Roberto, após um sinal-da-cruz, entrou, e seguimos em frente, pelo corredor principal.
Ao longe, avistei a humilde sepultura de meus pais. Caminhei sem pressa até lá, me ajoelhando ao chegar a frente da lápide bem cuidada. O mármore ainda reluzia, e flores brancas despontavam aqui e ali, no gramado. Sempre era fácil reconhecer, pois eu mesmo plantara aquelas flores, as favoritas de minha mãe. Fechei os olhos e fiz uma curta oração, virando-me em seguida para Sophia, que apenas observava.
_Vamos, pelo jeito não tem nada aqui, também.
Quando demos as costas para a lápide, uma voz doce chamou:
_Você demorou a chegar, Mikazinho...
Virei e vi uma garota jovem, de cabelos negros longos, sentada sobre a pedra de mármore. Tinha um sorriso dissimulado nos lábios, que se abriu mais quando cruzei olhares com ela.
_Você tem exatamente os mesmos olhos dele, sabia? Só a aparência que é mais nova... uma gracinha!_disse ela. Tinha uma voz melodiosa e infantil, e vestia-se com uma saia branca com pregas, e uma blusa simples, igualmente branca. Olhava para ela, irredutível. Sophia apertou minha mão junto as suas, um pouco mais forte que o normal. Após raciocinar um pouco, perguntei:
_Afinal, quem é você, e de quem está falando?
_Ele tem te esperado chegar! Ficou chateado por não ter vindo visitar seus pais logo, ao invés de ficar andando em círculos por aí._a garota disse, dando um risinho debochado. Avancei, tentando me aproximar. Já estava sem paciência para discursinhos ou brincadeiras. Queria chegar logo a resposta daquilo tudo.
A garota pôs-se de pé sobre a lápide com um pulo, e disse:
_Bem, ele está a sua espera, então melhor não se atrasarem..._em seguida pôs o indicador e o polegar nos lábios e assobiou um som estridente, porém melodioso.
Tão logo ela tirou os dedos dos lábios, o chão sob nossos pés começou a tremer, como se algo estivesse cavando para cima. Subitamente, mãos sujas de terra, esqueléticas e cadavéricas, agarraram nossos tornozelos com força, nos imobilizando.
_Mas o que..?_Exclamei, olhando assustado para a menina, que mantinha o doce sorriso nos lábios. Disse, piscando um olho:
_Nos vemos lá, gracinha!
Ela permaneceu parada, porém nós começamos a nos mover para baixo. As mãos nos puxaram com força para baixo da terra, por três buracos distintos. Fechei os olhos e chamei por Sophia e Roberto, e ouvi suas vozes distantes, ecoando embaixo da terra. Logo porém me calei, depois que um pouco da terra entrou em minha boca. Mantive os olhos fechados durante toda a viagem, que durou um tempo incontável, e ao mesmo tempo foi muito rápida.
Fomos jogados os três juntos em um largo túnel, em frente a uma grande porta dupla. Ao olharmos para trás não vimos mais sinal das terríveis mãos que nos trouxeram, além dos buracos por onde tínhamos sido lançados. Dei de ombros após sacudir a terra das roupas e do cabelo, e disse:
_Bem, parece que somos mesmo esperados... melhor irmos..._e avancei para as portas, a paciência há muito esgotada. Às minhas costas, Roberto disse:
_Por que sempre temos que vir parar embaixo da terra?
Sophia suspirou, exausta, enquanto eu empurrava a porta pesada com ambas as mãos. Lá de dentro, uma grande e inesperada claridade nos cegou por um momento, e o som do canto de pássaros invadiu nossos ouvidos. Uma voz familiar então clamou, tranqüila:
_Sejam bem-vindos, crianças. Sintam-se a vontade, enquanto termino de cuidar das plantas.
Quando me acostumei com a claridade novamente, vi de quem era a voz. Um homem alto, pouco mais velho que eu regava alguns vasos com plantas frondosas. Raios de sol vespertino entravam por um quadrado de vidro, colocado no teto, sobre as plantas. O resto da luz, mais clara, não tinha fonte específica à primeira vista, mas estava mais interessado na figura abaixada sobre as plantas.
Vestia-se com uma roupa simples e longa, totalmente branca, como boa parte do ambiente. Suas roupas destoavam muito de seus cabelos negros, e quando virou-se para nós, o choque foi terrível.
Tinha a minha forma, mais sério e austero. Mais experiente e com certeza, ainda mais depois de eu ter descido pela terra, mais limpo. Seus olhos, diferente dos meus, eram de tonalidade mais clara, e não traíam qualquer emoção. Deixou o regador de lado e disse, fazendo uma breve reverência:
_Muito prazer, crianças. Eu sei que estiveram procurando por mim. Pois bem, aqui estou. Sou Christian Rozenkreuz.terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Crônica #23: Trapped
Boa leitura!
Não houve pausa, não houve um momento sequer para pensar em uma estratégia. Os três primeiros encapuzados avançaram rapidamente, cada um portando uma espada. Defendi imediatamente antes de um deles acertar meu ombro, esquivando e, em seguida, rasgando sua capa na altura do pescoço. Meu adversário caiu, agonizante, e pude ver que sangue fluía de sua pele, escorrendo pela capa, e pelo chão.
O encapuzado que falara anteriormente estalou os dedos, e mais um deles saltou da “platéia” que se formara, vindo diretamente para mim. Chutei-o para longe, tentando pensar e ver se meu noivo e Roberto estavam bem. O primeiro acabara de derrubar seu adversário, cortando-lhe o braço, enquanto o segundo avançava animadamente na direção de um encapuzado já no chão, furando-lhe o peito.
- O que foi? Só estou garantindo que ele não vai reviver e virar um ghoul – disse Andolini, quando percebeu meu olhar de incredulidade.
Percebi aquele que eu havia chutado aproximando-se novamente, e, sem hesitar, enfiei a adaga fundo em seu ventre. O próximo veio logo atrás, mirando meu pescoço, e eu desviei o golpe, girando e atingindo-o pelas costas. Enquanto isso, Mikhail despedaçava mais um deles, implacável como eu nunca o vi, e Roberto mirava a cinquedea na cabeça de um encapuzado cuja mão sangrava terrivelmente. Estávamos indo bem.
Mas eu sabia que não poderíamos ficar assim pra sempre. O número de encapuzados não parecia diminuir nem um pouco, e, após derrotar sucessivos adversários, o cansaço já era evidente em meu noivo e Andolini, que se esforçavam para manter o ritmo. Eu poderia agüentar mais. Mas e eles?
Rasguei o peito de outro encapuzado com minha adaga. Estava ficando cansada de lutar como uma humana. E então, decidi.
- Mika, Roberto... Tentem não se aproximar de mim, sim? – falei-lhes, alto o suficiente apenas para a minha voz sobrepor-se ao som do choque entre metais.
- Sophy, o que vai...? – Mikhail aparou um golpe de um inimigo que quase o pegara distraído, enfiando a espada em sua barriga em seguida, derrubando-o. Estava arfando, cansado.
- Vou pegá-los... A minha paciência acabou.
Fechei os olhos brevemente, tentando me concentrar. Senti que havia mais um adversário correndo para mim. Com sorte, conseguiria detê-lo a tempo. Só mais um pouco...
- Sophia!
E o inimigo chegou até mim, no momento que abri os olhos, desferindo um golpe em direção ao meu rosto. Esquivei-me como pude, não conseguindo evitar um arranhão. E simplesmente toquei-lhe o pulso. E ele caiu, morto.
Nessa hora, os encapuzados da platéia levantaram-se.
- Ela está usando poderes... Vão! Detenham-na! – ordenou o chefe, e imediatamente sete encapuzados saltaram em minha direção.
Soltei minha adaga no chão. A partir de agora, usaria apenas as mãos. Movimentava-me fluidamente entre os adversários que avançavam contra mim, tocando-os nos braços, costas, cabeças, em qualquer lugar. E um após o outro, eles caíam. Depois, fui até os membros que restavam na platéia, saltando, girando, tocando-os. Desviando de seus golpes como podia. Até que não restava mais nenhum. Até chegar ao chefe.
- Muito bem... Agora está sozinho. Vai nos dizer onde está o seu senhor... Ou terei de recorrer a algum método mais... Convincente?
Olhava-o fixamente, observando cada movimento que fizesse, cada respiração. Subitamente, o encapuzado-mestre riu.
- Senhor? Eu não sei onde está. E mesmo que soubesse, eu nunca diria! Trabalhamos por ele, e morreremos por ele, para depois renascermos. E teremos vida eterna! Quanto a vocês... Coisas muito piores os aguardam. Agora... A eternidade me espera!
O encapuzado tirou rapidamente do bolso da capa um punhal de prata, enfiando-o em seu ventre, rasgando-o. Caiu no chão, com um urro de dor. Estava morto antes mesmo que eu o pudesse tocar. Caí de joelhos, e Mikhail e Andolini correram pra mim.
- Sophy... Está... Tudo bem? – meu noivo estendeu a mão para mim, me olhando, apreensivo.
- Sim... Eu estou... – hesitei um pouco, mas em seguida peguei sua mão, e ele me ajudou a erguer-me – Apenas um pouco cansada.
Andolini entregou-me minha adaga, que eu havia deixado para trás, e eu agradeci, guardando-a.
- Vamos embora daqui – ele disse, olhando ao redor – Acho que não há mais nada a ser feito.
Mikhail e eu assentimos, e, apoiados uns nos outros, sangrando e exaustos, fomos para a saída.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Crônica #22: Path of Regret
Oi pessoal, tudo bem? ao contrário do que a Pris disse, não demorei tanto assim com esse, não é mesmo? xD
Enfim, aproveitem mais esse capítulo, só cuidado para não arrancarem os cabelos, com a expectativa do próximo! *evil laugh* ;)
Pegamos o carro de meus avós emprestado e saímos. No carro, Roberto lia seus apontamentos, verificando possíveis erros.
_Deixa eu ver se entendi. Christian Rozenkreuz encontrou um meio de tornar-se imortal, e vive até hoje por aí. Os Stravinsky são na verdade os descendentes dos Brunetière, que juraram proteger a linhagem dos Kreuz, ou seja, o nosso Mika, aqui...ok.
_Isso, e adicione aí como incógnitas a morte de Laura, e como Christian descobriu a existência e o paradeiro de Mika._disse minha noiva, pensativa.
Pouco depois, chegamos à igreja de Sta. Sophia, ou o que restara dela. Descemos do carro e caminhamos, até onde ficava a porta. O cenário era desolador. As paredes de pedra haviam resistido, porém a porta, os vitrais e o teto haviam sido consumidos pelas chamas. Entramos com cuidado, passando pelos destroços. Lá dentro, a destruição era ainda mais visível.
O chão e as paredes estavam negros como carvão. As imagens de santos, todas destruídas. Bancos, portas e pedaços do telhado, transformados
Um anjo de gesso em tamanho natural, do lado esquerdo, foi o marco onde o fogo parou, pois só a face direita havia sido tocada pelas chamas. Isso era visível, pois somente metade de seu rosto estava escurecida. Me aproximei da imagem, que tinha um rosto implacável e uma espada erguida nas mãos. Sua imagem parecia ainda mais terrível com metade da face sombreada, cor de carvão.
_Algo de errado aí, Mika?_minha noiva veio ao meu encontro, para olhar a imagem mais de perto._estranho o fogo ter parado exatamente aqui, o que será que aconteceu?
_Bom, segundo a reportagem sobre o incêndio, começou a chover pouco depois do incêndio começar, mas até aí, já havia consumido quase a igreja inteira. Só esse lado esquerdo ficou intacto, e mesmo assim, ainda bastante destruído._Roberto explicou, olhando para os pés do anjo, onde havia uma placa de bronze parcialmente derretida onde lia-se:
Uriel
Anjo do Arrependimento
Ergui uma sobrancelha e disse em tom sarcástico, examinando a estátua:
_O arrependimento com uma espada na mão? Nem um pouco ameaçador...
Sophia riu, e observou as paredes que não haviam sido consumidas, tentando encontrar alguma pista ou indício, mas aparentemente, nada fora do comum. Roberto, forçando um pouco a mente, disse:
_Uriel, pelo que me lembro, é aquele que precede a tempestade. Apropriado para essa situação de incêndio. O que de qualquer jeito é estranho, porque dizem que ele não tem piedade de nada...
Toquei o gume da espada que a estátua segurava, e para minha surpresa, estava afiado. Surgiu um talho fundo em meu indicador, por onde escorreu um pouco de sangue. Soltei uma exclamação de surpresa, e Sophia virou-se rapidamente para mim:
_O que houve, querido? Algo de errado?
_Não, só cortei o dedo...
O olhar de minha noiva paralisou-se na estátua, e eu instintivamente me virei para ver. E ali, no lado branco do anjo, pude compartilhar do assombro de Sophia. O pouco sangue que saiu do corte em meu dedo escorria agora pela lâmina de gesso, revelando ranhuras, como um emaranhado de veias em baixo relevo, que cobriam toda a espada. Ao preencher toda a extensão da lâmina, o olho esquerdo de Uriel se iluminou, e o chão cedeu sob nossos pés. Entre exclamações de surpresa e sustos, estávamos mais uma vez no subsolo de uma igreja. Na total escuridão.
_Olha, eu não sei vocês, mas eu tenho certeza que isso não foi causado por enfraquecimento da estrutura do prédio... _resmungava Roberto, sacudindo a poeira de suas roupas. Em seguida acendeu um isqueiro, e percebemos que o chão não havia cedido, realmente. Uma parte do chão desceu, juntamente conosco e com a estátua de Uriel, que agora estava ali ainda imponente, porém sem mais o brilho no olhar.
_Essa estátua era um elevador para o “subsolo
_Pelo menos ninguém aqui sofre de claustrofobia...
E lá na frente, ouvi um murmurar sem sentido. Segurei o punho de minha espada, esperando o que quer que estivesse a frente. O sussurro só aumentava, ficando cada vez mais próximo, até que se tornou uma voz sibilante e gelada:
_Finalmente, nossos convidados chegaram. Vamos recebê-los de forma bem calorosa!
Roberto já tinha sua cinquedea em mãos, e Sophia aguardava, apreensiva, com sua adaga
_Quem são vocês? Apareçam de uma vez!_minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas era bem apropriado, afinal estávamos no covil do inimigo.
_Como quiser, garoto insolente!
E das sombras saltaram três vultos negros, vindo em nossa direção. Sem pensar, brandi minha espada contra o primeiro, que se partiu em dois, com um grito furioso. Engoli em seco, pois fora mais impulsivo do que planejado. Os outros vultos recuaram, ficando à espreita. Segurei a espada mais firmemente, retomando a compostura. As sombras voltaram a atacar, mas cortamos à frente com rapidez, desintegrando-as.
_Bem, parece que somos esperados mesmo... _disse Roberto, passando seu punhal de uma mão para a outra. Arrancamos uma tábua do elevador com a estátua de Uriel, e fizemos uma tocha improvisada. Seguimos em frente, em uma fila única. O corredor aos poucos ia se estreitando, porém após uma curva, podíamos ver uma larga abertura, por onde brotava luz. Corremos até lá, e após a pequena entrada, um largo salão revestido de mármore se abrira aos nossos olhos.
Completamente iluminado por archotes, o salão possuía seis colunas largas, distribuídas uniformemente por sua extensão. E bem na nossa frente, do outro lado da sala, uma centena de encapuzados nos aguardava. Não podíamos ver seus rostos ou qualquer parte de seus corpos, por baixo do longo manto negro, mas certamente pareciam afoitos, prontos para iniciar algo grande. Um deles disse, a voz arrastada e fria:
_Estamos aqui a mando de nosso mestre, para verificar se são dignos de estarem em sua presença. Em guarda!
Aquelas dezenas de pessoas sacaram de armas como espadas, lanças e machados, e marcharam para os lados da sala. Só restaram três deles, que caminhavam para o centro do grande salão, que agora remetia mais a uma arena de gladiadores.
_Obviamente, não seríamos injustos a ponto de marcharmos todos em sua direção. Como nosso mestre e senhor é benevolente, iremos três de cada vez. Uma luta justa, contra os três jovens visitantes.
Pude sentir um tom prazeroso na voz daquela sombra, e percebi que não havia jeito, a não ser lutar. Fechei os olhos por um momento, enquanto ouvia Roberto dizer, em voz baixa:
_Vocês tem certeza que isso é necessário?
_Creio que não estejamos em posição de negociar. Alguma idéia, meu Amor?_perguntou-me Sophia. Eu apenas respirei fundo, e, abrindo os olhos gritei, sacando minha espada:
_En Garde!
E a luta começou.
sábado, 14 de novembro de 2009
Crônica #21: Heritage
Decidimos terminar o café-da-manhã, antes de o casal de idosos continuar a narrar uma história que, certamente, seria de importância vital para prosseguirmos com a investigação.
Após a refeição, todos fomos para a sala, onde continuaríamos a conversa. Foi o avô de meu noivo o primeiro a romper o silêncio.
- Garotos – ele suspirou – Nós não podemos ajudar muito, com relação ao atual paradeiro de Christian ou de seus seguidores. Tudo que podemos fazer é esclarecer o passado, para que possam compreender melhor a situação.
- Atual paradeiro? – questionou Mikhail, parecendo confuso – Então isso quer dizer...
- Sim, meu filho. Ele está vivo, em algum lugar por aí...
Roberto se remexeu desconfortavelmente no sofá.
- Mas isso não é possível! Christian era um homem comum, deveria ter morrido há muitos anos!
- Mas não morreu – a senhora balançou a cabeça, pesarosa – Ele concluiu o trabalho de sua vida, logo após a morte de Laura. Christian... Tornou-se um imortal.
Ficamos todos em silêncio, estarrecidos. O Sr. Brunetière prosseguiu.
- Não sem antes utilizar-se de muitas vidas. Afinal, testes precisavam ser feitos... Como descendente de grãos-mestres, herdei alguns escritos da época, passados de geração em geração. Há registros de mortes e experimentos que falharam, mas os “seres” produzidos desse modo foram mantidos sob controle da sociedade, para efetuar mais pesquisas. Ao que parece, essas aberrações eram mantidas em absoluto sigilo, monitoradas por Christian pessoalmente, em um certo laboratório subterrâneo...
- O mesmo laboratório que visitamos – conclui, pensativa – Os ghouls eram as aberrações de Christian...
- Exato, jovem Sophia... Os mesmos ghouls utilizados no massacre da igreja que vocês foram. A essa altura, meus ancestrais já haviam fugido, Christian era imortal, e sua esposa já estava morta. Tudo o que ele desejava era apagar os traços daquilo que construíra. Havia enlouquecido...
- E então – A Sra. Brunetière interveio, continuando a história -, quando reparou no sumiço do casal de grãos-mestres e de seu próprio filho, foi atrás deles, forçando-os a fugir, mudando de país em país. E foi assim que chegaram aqui. Não sabemos se ele desistiu de procurar, ou se perdeu a pista do casal. O fato é que vivemos algumas gerações em paz, e o assunto foi quase esquecido. Por isso não tivemos um herdeiro, para continuar a proteger o jovem Mikhail. Achávamos que não fosse mais necessário. Até a morte dos nossos protegidos...
- Meus pais... – meu noivo fitava o chão, abatido. Segurei a mão dele, acariciando-a, esperando que isso o confortasse.
- Sim... Percebemos, então, que o perigo não havia passado. Estava vivo, em algum lugar... Esperando uma chance...
- Então, apesar de tudo, Christian ainda tem aliados? – questionou Andolini, curioso. Foi o avô de Mikhail a respondê-lo.
- Não exatamente. Eles são remanescentes, herdeiros de pesquisadores de baixa hierarquia na antiga Rosenkreuz que conseguiram escapar ao massacre. Embora não saibam onde está seu mestre, acreditam que ele ainda exista, e fariam tudo para servi-lo. Em troca, é claro, da “Fórmula da Imortalidade”. São grupos bastante fragmentados e independentes entre si, o que torna ainda mais difícil encontrá-los. Acreditamos que os pais de Mikhail foram mortos por integrantes de um desses grupos... Ou talvez pelo próprio Christian... Nunca se sabe.
- Achamos que vocês devem visitar a Catedral logo – disse a avó de meu noivo, séria – Pode ser que lá encontrem alguma pista. Afinal, ela não foi escolhida por acaso... Sophia. O mesmo nome da jovem noiva de nosso neto. Significa que devem saber sobre ela.
- Ou pior... – continuou o avô – Pode ser um aviso. Um aviso para que tomem cuidado... Especialmente a preferida de Mikhail. Talvez eles achem que seria um bom agrado ao seu senhor fazer sofrer o descendente, matando-lhe a esposa. Fazendo-o perdê-la, como Christian perdeu sua própria...
Mikhail apertou minha mão com força, os olhos fixos no chão.
- Eu não vou permitir... Tomaremos cuidado...
- Novamente, querido... Pedimos desculpas por não ter contado antes. Mas a situação há algum tempo era tão diferente, não pensávamos que seria necessário...
- Está tudo bem, vovó – ele olhou-a, com um sorriso amável – Mesmo que não sejamos parentes de sangue... Vocês ainda são minha família, meus avós – ele foi até o casal de idosos, abraçando-os – Vai ficar tudo bem. Iremos agora ver a Catedral, e voltaremos logo.
- Obrigado, Mikhail, meu neto... – disse o Sr. Brunetière – É um bom garoto, e vai conseguir descobrir o que nós não conseguimos. Agora vão. Cuidado, e voltem logo.
E assim, saímos, rumo à Catedral. A Catedral que tinha o mesmo nome que eu.
domingo, 1 de novembro de 2009
Crônica # 20: Truth
Boa noite, amigos! Allan aqui (jura?), com mais um capítulo da epopéia de Mika e Sophy! Enfim, espero que gostem desse capítulo! Abraços, e até a próxima! =**
Fui acordado por passos no corredor. Minha avó, logo cedo correndo com os afazeres da casa. Estar ali novamente me trazia um enorme prazer e nostalgia. Sorri, levantando-me, e deixando Sophia dormir um pouco mais. Me arrumei e desci as escadas, para ajudar meus avós com o café da manhã e outras pequenas atividades. Minha avó não parava de sorrir, desde que me viu pela manhã. Perguntou-me várias coisas sobre Sophia, e viu que respondia a tudo animadamente. Era sempre um prazer falar dela, pensar nela. Tudo que envolvia ela me fazia feliz.
Pouco tempo de conversa depois, Sophia desceu as escadas silenciosamente, e sorriu ao chegar na cozinha. Abracei-a e beijei seus lábios suavemente, desejando a ela um bom dia. Minha avó passou a conhecê-la melhor ali, porém sem ainda dizer que era uma vampira. O choque certamente seria grande, caso tivesse contado logo que chegamos. Quando Roberto surgiu na cozinha, sentamo-nos para o café.
Tomamos café tranquilamente, conversamos um pouco mais e então fui ao ponto que nos levara até ali:
_Vovó, sabe algo sobre a igreja de Sta. Sophia? Eu vi no noticiário, e fiquei preocupado.
Meus avós empalideceram, e ao se entreolharem, percebi que não se tratava apenas de um alerta dos Rosa-Cruz para mim. Havia algo além. Foi meu avô quem começou a explicar.
_Mikhail, meu neto... Você já deve saber de tanta coisa... Nos desculpe, nós não podíamos contar todas as coisas que sabíamos a você. Seus pais nos fizeram prometer a eles, mas... Você sempre foi tão inteligente, tínhamos certeza de que viria até nós, com as perguntas mais difíceis da sua vida...
_Não cheguei até aqui sozinho, vovô... Só consegui chegar até aqui graças a Sophia e a Roberto. Sem eles, eu nem teria decidido sair nessa busca... Mas bem, o que vocês têm a me dizer? O que esconderam de mim?_ perguntei, um pouco mais alterado do que quisera parecer, mas ainda assim, sem modos rudes.
Minha avó sorriu e assentiu, dizendo:
_Bem, primeiro conte-nos o que já sabe, inclusive sobre os vampiros..._E olhou diretamente para Sophia. Minha noiva corou levemente, e eu perguntei assustado:
_Como sabem sobre vampiros? E como sabem que a Sophia é uma vampira...?
_Sabemos de tanta coisa, querido... Inclusive identificar um vampiro quando vemos um... _Sorriu ternamente para Sophia, e em seguida completou._ Mesmo assim, podemos ver que a jovem Sophia é uma vampira decente... E bem, se ela te faz feliz, porque iríamos contra?
Segurei a mão de minha noiva sob a mesa, e sorrimos um para o outro. Meu avô pigarreou e disse:
_Bem, Mikhail... Conte-nos o que descobriu até agora...
E eu contei. Tudo, desde que conheci Sophia e descobri sobre vampiros, Rozenkreuz, os Ghouls na Itália, até a fuga do filho de Christian para a Ucrânia, com os Brunetière. Ao final, meus avós suspiraram e sorriram para nós.
_Realmente, vocês chegaram bem longe, para terem conseguido até mesmo o nosso antigo nome... _Disse minha avó, sorridente. Levantou-se e prosseguiu, pigarreando._ Sim, meu querido... Nosso sobrenome original era Brunetière... Nós somos os guardiões do legado de Kreuz. Somos seus guardiões. Sempre estivemos aqui para protegê-lo. Mesmo depois da vergonha que sofremos quando falhamos com seus pais...
Eu olhava para eles, incrédulo. Sophia segurou meu braço, sem compreender direito, enquanto Roberto divagava em um canto da cozinha. Perguntei, a boca seca:
_Como assim...? Meus pais...?
_Sim, querido... Eles não morreram... Foram mortos, pelos asseclas de Rozenkreuz. Não pudemos fazer nada para detê-los. Ainda bem que o mandamos para o exterior, antes que o pior acontecesse..._disse minha avó, tristemente. Sophia perguntou, um pouco pensativa:
_Por favor, expliquem isso direito, de guardiões e asseclas de Rozenkreuz...
_É claro, jovem. Bem, eu e Marie somos os descendentes da família Brunetière. Ligados aos Kreuz pela promessa de proteger e servir. A cada geração, mantemos nossa descendência protegendo aos descendentes de Kreuz, em nome do amor que Laura Kreuz sentia por seu filho. _Explicava meu avô, perante minha face perplexa. Prosseguiu._ E Christian Rozenkreuz prometeu nos tempos antigos que destruiria todo o seu legado e seu sangue. E por isso os seguidores dele ainda procuram por sobreviventes da linhagem de seu antigo mestre, como o pequeno Mikhail...
Todas aquelas informações juntas me faziam passar mal, ainda mais por saber que eles sempre souberam, mas nunca haviam me revelado. E pra completar, eles nem ao menos eram meus avós verdadeiros. Tudo aquilo era muito perturbador, e de certa forma triste. Eu era apenas um fardo para aqueles que me criaram. Algo assim tinha que terminar, de uma forma ou de outra. Levantei-me da mesa e disse, o mais firme que pude:
_Fiquem tranqüilos, eu vou acabar com os Rosa-Cruz, para que nenhum outro descendente meu ou de vocês tenha que ficar preso por antigos costumes! Aliás, eu libero vocês desse juramento...
Meu avô sacudiu a cabeça.
_Não é simples assim, Mikhail. Não há como deter os Rosa-Cruz. Nunca se soube como ou onde eles se instalam, quem é o seu líder, nada disso! Se soubéssemos, nós mesmos, ou nossos ancestrais, teriam dado cabo disso, para que o legado se descontinuasse.Porém, não é possível...
_Dê-me mais algumas informações, e eu vou encontrar por conta própria! Cheguei até aqui, não há como me impedir de continuar!
_Está bem... Contaremos tudo o que soubermos... _disse minha avó, ternamente._ Você tem razão, Mikhail. Você tem pessoas valorosas ao seu lado, e conseguiu chegar até aqui... Nenhum outro Kreuz na história descobriu a ligação sinistra que existe entre seu sobrenome e a terrível organização por trás disso... Você é diferente, e tem uma chance real de impedir esse mal de continuar...
Roberto aproximou-se da mesa, interessado no que viria a seguir. Afinal, nos aproximávamos de nosso objetivo cada vez mais.E agora aquilo tornara-se mais do que mera curiosidade, pelo menos para mim. Agora era algo muito maior, que envolvia minha família, e qualquer descendência que viesse. Não quereria um futuro de medo e incerteza para meus filhos. Precisava de livrar do problema, e sentia que ali encontraria a solução.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Crônica #19: Another Meeting
-> Obs.: Eu já devia ter posto isso aqui, por sugestão das minhas amigas, mas acabei esquecendo, mas agora vai: Atenção, esta série começou a ser escrita ANTES dessa "crepusculomania". Então... Somos originais, a tal autora que nos imitou u.u
-> Obs. 2: Estou "adornando" o blog (isso mesmo, "adornando"... Enfeitar é coisa de pobre). Já coloquei um contador de visitas fofo, bem como um reloginho. Vou arrumar mais coisas pra colocar, assim que der tempo. Então, façam a parte de vocês! Os números do contador só mudam com visitinhas! <3
- Vamos. Vai ser divertido. Você conhecerá minha família, Sophy. Tenho certeza que irão gostar de você.
Mas não importava. Nada do que ele dissesse me faria sentir menos ansiosa. Estava assim desde a manhã, depois do café no hotel, ainda em Sarlat-la-Canèda. Quando decidimos de fato ir a Kiev, meu noivo animadamente sugeriu uma pausa na casa de seus avós, para uma visita. E agora, no avião, quase chegando ao nosso destino, eu ainda me sentia tensa.
- Veja pelo lado bom – Roberto, que estava na fileira da frente, se virara para trás, em nossa direção – Não precisaremos pagar um hotel.
- É verdade – Mikhail sorriu, tocando minhas bochechas – Eles ficarão felizes em nos receber. Já há algum tempo, inclusive, que me pedem para visitá-los.
Eu balancei a cabeça, em sinal afirmativo. Sim, nós iríamos vê-los. Mas isso ainda me deixava meio nervosa. Afinal, essa era também a primeira vez que eu ia a um lugar onde só havia humanos. Eu não sabia exatamente como devia me comportar, para que eles não percebessem a minha natureza e ficassem com medo. Ou pior: que fossem contra o noivado.
Como que lendo meus pensamentos, Mikhail apenas segurou minhas mãos entre as dele, encostando a cabeça na minha.
- Vai ficar tudo bem... Apenas seja você mesma.
Eu sorri, tranqüilizada. E aí, pousamos. Em Kiev.
Meu noivo estava visivelmente contente por estar em casa. Deu rápidas instruções em ucraniano ao taxista, e logo estávamos em frente a um sobrado, em um bairro calmo e arborizado. Não era tão grande, mas tinha uma fachada delicada e muito bonita. Saltamos do táxi com nossas malas, atravessando o pequeno jardim à frente do sobrado, em direção à porta.
Engoli em seco, enquanto Mikhail tocava a campainha. Em um instante, uma senhora idosa de aspecto adorável abriu a porta, e sorriu feliz ao ver a visita. Aquela era, sem dúvidas, a avó.
- Meu menino! – e abraçou Mikhail, animada – Sabíamos que viria, mas não tão cedo. Trouxe amigos, não? – e olhou para mim e Roberto, com um sorriso afável – Por favor, entrem!
Nós entramos, fechando a porta atrás de nós. Um senhor também veio nos receber, abraçando meu noivo e acenando para nós.
- Sophy, Roberto... Estes são meus avós, Marie e Dimitri Stravinsky. Vovô e vovó... Meu colega de pesquisas, Roberto Andolini... E esta... – Mikhail me pegou pela mão, me conduzindo gentilmente para perto – É Sophia Von Klaus... Minha noiva.
Eu corei levemente, sem graça, enquanto o casal idoso me olhava com atenção. Prendi a respiração, esperando por uma reação negativa. Mas então, ambos me abraçaram forte, sorrindo amavelmente.
- Seja bem-vinda – sussurrou para mim a Sra. Stravinsky, com a voz acolhedora.
- È uma bela moça – disse o Sr. Stravinsky, indo para o lado de Mikhail – Tenho certeza que escolheu a garota certa. Ela deve ser muito especial.
- Sim, ela é – ele respondeu, sorrindo pra mim.
- Bom, a casa está limpa, e o jantar, quase pronto. Por que não se acomodam em seus quartos? – sugeriu a senhora, soltando-se de mim – Eu irei levá-los até eles.
Ela subiu as escadas, e nós a seguimos, levando nossas malas. Paramos em frente a um quarto simples, com uma cama, criado-mudo e armário, as paredes e cortinas brancas.
- Este é o quarto de hóspedes. O jovem pesquisador pode ficar aqui.
Roberto agradeceu e adiantou-se, entrando para arrumar as coisas. Enquanto isso, a senhora nos levou ao quarto vizinho. Ele tinha paredes brancas, cortinas azuis, e, além da cama, um armário com muitos livros, um computador, e mais alguns objetos. Mikhail deu um sorriso largo, entrando e colocando sua mala em um canto.
- Está exatamente como deixei. Obrigado, vovó.
- Por nada. Cuidei para que fosse limpo, mas sem mudar as coisas de lugar. Sabia que gostaria.
- Obrigado mesmo...
- Bom... – ela virou-se para mim, calma – A jovem Sophia pode ficar aqui com o Mikhail. É uma bicama, e você pode usá-la e ficar aqui com ele.
Eu sorri, agradecendo, e coloquei também minha mala no quarto, enquanto acertávamos mais detalhes da organização. E assim, estabelecemo-nos em Kiev. Na casa de minha nova família.
domingo, 18 de outubro de 2009
Crônica #18: Go Home
De volta, pessoal! Desculpem a minha ausência, mas tive coisas da faculdade e trabalho pra resolver, por isso tive que deixar tudo na mão da Pris. Com certeza ela cuidou muito bem de tudo! Bom, novamente peço desculpas, e espero não ter mais que me ausentar! Enfim, aproveitem a crônica^^'':
Sorri, entre o triunfante e o perturbado. As coisas se encaixavam bem até demais. Disse aos dois, ajeitando os óculos no rosto:
_Finalmente, a ligação que faltava comigo...
Sophia me olhava, quieta. Por um momento, todos ficamos em silêncio, pensando sobre tudo o que havíamos acabado de descobrir. Um silêncio incômodo, que, após algum tempo, foi rompido por minha noiva.
_Então... Teremos que ir pra Ucrânia! Lá, com certeza vamos descobrir mais sobre os Brunetière. Mais sobre você, Mika...
Roberto coçava o queixo. Parecia imerso em pensamentos, então eu prossegui:
_Bem, podemos ir para Kiev, mas... Ainda tem mais para se procurar aqui, eu acho...
Procuramos, por entre as páginas amareladas dos livros e documentos antigos. Encontrei o nome Brunetière em mais alguns registros, e um endereço. Talvez fosse a casa onde viveram. Perguntamos para um funcionário, que prontamente nos atendeu, respondendo que ali só existia um hospital. Ao verificar um arquivo sobre o hospital, engoli em seco.
Uma foto tirada de um satélite mostrava o complexo de prédios que formavam o hospital, e ali estava. Uma perfeita Rosa-Cruz. Ao mostrar para Roberto, ele disse, em voz baixa:
_Queima de arquivo, é claro! Pago o almoço de quem adivinhar quem bancou a construção desse hospital...
Não era preciso responder. Olhamos para mais algumas fotos de arquivo do hospital, até mesmo no símbolo dele, encontramos uma referência a Kreuz e seu filho. O logotipo mostrava um grande sol com uma rosa no centro, iluminando uma pequena muda de uma frágil planta.
“Sua semente germinou, Rozenkreuz...” Pensei, saindo da biblioteca. Não iríamos viajar no mesmo dia, portanto decidimos voltar ao hotel, para mais um brainstorm. Procuramos por mais referências e simbologias. Procuramos localidades, possíveis pistas. Nada, apenas pequenas coisas. Realmente, a casa dos Brunetière fora onde o hospital foi construído, anos mais tarde.
_Nada!_disse Roberto, ao lançar a última cópia tirada do registro da cidade no lixo. Suspirou, levantando-se, e foi para seu quarto, arrumar as malas. Decidimos por ir para a Ucrânia na manhã seguinte. Não havia mais razões para ficarmos ali. O único remanescente tinha sido varrido, e agora era dirigido, provavelmente, por um Rosa-Cruz remanescente.
Preparei minhas malas, também. Guardei minha espada na caixa de meu violino, organizei as roupas, anotações e outros objetos, e então me deitei. Sophia já me esperava, sentada na beira da cama, a expressão meditativa. Ao me ver, sorriu e deitou-se junto a mim. Adormecemos bem rápido e eu, mais uma vez, sonhei.
Minhas mãos amassavam um pequeno pedaço de papel. Meu coração sentia uma fúria intensa, inumana. Eu havia perdido algo. Mais de uma vez. Deixei-o escapar por entre meus dedos. O último remanescente de meu maior pecado, o maldito, de sangue impuro. Carregaria para sempre minha chaga, o sangue impregnado com a mácula que causei. Meu filho, minha linhagem, a herança de meu sangue. Maldição.
Acordei, suando frio. Era como se eu tivesse falado comigo mesmo. Ou melhor, se Christian estivesse falando comigo. Eu era maldito, era parte de sua linhagem. E continuaria passando seus genes sempre
_Ei, vocês dois! Acordem, precisamos ir agora!
Levantei-me da cama, um pouco atribulado, com Sophia em meu encalço. Nos arrumamos o mais rápido possível, e descemos para tomar o café da manhã. Roberto já estava na mesa, um jornal nas mãos. Ao nos ver, ficou afoito, e nos mostrou uma notícia da seção “mundo” do jornal. Uma foto de uma igreja em chamas, onde se lia:
“Catedral de Santa Sophia, de Kiev, em chamas na noite de ontem. Provavelmente causado por incêndio criminoso. Autoridades em alerta para possível incendiário.”
Ao terminar de ler, passei para Sophia, que leu, atônita. Ao final, disse:
_Alguém não nos quer lá, pelo jeito...
_Então é pra lá mesmo que nós vamos..._Respondi, amassando o jornal com as mãos. Direto para Kiev. Direto pra casa.